2017: um novo ano

January 31, 2017

 

Desejo que 2017 seja um ano maravilhoso para todos, mas também desejo que seja, de fato, um novo ano. Como uma página em branco, gostaria que pudéssemos olhar o caderno do ano anterior, e copiar com letra diferente aquilo que não funcionou, os exercícios que não deram certo.

 

No mercado editorial, essa reescrita é essencial, em todos os sentidos.

 

Quando a Editora Bambolê foi aberta em junho de 2015, começamos nosso caderno querendo reescrever várias folhas tortas e esquisitas que vivenciei no mercado editorial. Claro que os sonhos não andam de braços dados com o orçamento. Muitos planos ganharam nova rota. Toda grande mudança precisa de tempo para amadurecer, para se solidificar, mas qualquer caminho começa com um primeiro passo.

 

Demos alguns primeiros passos. Respeitar autor de texto e de imagem; remunerar ilustradores como autores; escolher livros pelo critério do encantamento, antes do critério comercial; ser transparente em todas as etapas; envolver os autores em todas as etapas do livro; efetivamente editar os textos aprovados, antes deles partirem para a revisão; definir um prazo para seleção de originais, para que autores não fiquem indefinidamente sem uma resposta, sem mesmo saber se seus textos foram lidos...

 

Mas é com tristeza que vejo que esses passos ainda são dados num mercado editorial que age com amadorismo em vários aspectos, que não valoriza todos os envolvidos na etapa de criação de um livro.

 

Muitos autores (iniciantes ou não) desconhecem o grande problema de pagamento que as editoras enfrentam com distribuidores e livrarias. Desconhecem que uma editora investe tempo e recursos para editar, revisar, ilustrar, pagar projeto gráfico, pagar gráfica, pagar local de armazenamento de estoque, pagar frete para enviar livros para revenda, pagar publicidade... para então ficar na expectativa que uma tiragem seja vendida o mais rápido possível, pois de todo esse investimento: 10% vai para o escritor, 10% vai para o ilustrador (no caso da Bambolê) e 50% a 55% vai para o distribuidor/livraria. Alguém pode pensar: então sobram 30% para a editora. Claro que não. Desses 30%, são retirados os custos do livro, os custos fixos da editora, e vão sobrar entre 10% e 15%. Estaria tudo bem se o pedaço da pizza que faz a revenda comprasse esse estoque e gerasse caixa para a editora. Mas não é assim que funciona. Bastaria a cada um ler as entrelinhas de tantas matérias que são publicadas e falam a respeito desse tema. Ontem mesmo o Publishnews divulgou a matéria que saiu no Jornal Valor Econômico, sobre as dificuldades da Livraria Cultura (http://www.publishnews.com.br/newsletters/2593). No texto, Sergio Herz afirma que as editoras tinham a Cultura como "paizão", porque ela sempre pagava. Entendem a loucura do mercado? O correto passa a ser a exceção. Pagar direitos autorais aos autores, pagar pelos livros consignados, quitar seus compromissos são motivos de festa.

 

A Bambolê nasceu para andar na contramão dessa ideia. Não queremos ser a exceção do mercado, queremos que o mercado mude sua relação com o livro, que passem a fazer o certo, simplesmente porque é o certo. E nisso percebemos que a mudança precisa vir de todas as pontas.

 

Quantos escritores enviam seus textos para editoras e sequer conhecem a qualidade dessa casa editorial, que nunca compraram um livro do seu catálogo? Quantos autores desejam ter originais publicados, mas sequer conhecem seus pares que publicam o mesmo gênero literário? Quantos escritores desejam fazer sucesso no Brasil, mas só conhecem e valorizam os livros estrangeiros?

 

Quantos pais reclamam que os filhos são agitados, têm pouca concentração, mas gostam de presenteá-los com brinquedos barulhentos, mas não são capazes de presenteá-los com um livro, e mostrar-lhes o quanto eles podem imaginar e criar a partir de uma história para sua idade?

 

Quantas livrarias não conseguem manter as portas abertas, mas não percebem que também vão fechar as portas de seus principais fornecedores se continuarem a trabalhar os atuais modelos de consignação?

 

Quantos professores reclamam da falta de interesse de seus alunos, mas não são capazes de investir alguns minutos para envolvê-los no "além" de um livro, para mostrar que é possível se divertir com o conhecimento, gostar de aprender?

 

Em nossa última seleção de originais, recebemos mais de 500 originais. Foi um trabalho louco de vários meses, para ler e pré-selecionar 50 textos. E, no final, só foi possível escolher 4 textos. Se o desejo fosse irmão do orçamento, teríamos selecionado muito mais. Contudo, as vendas em feiras, em lançamentos, não refletem as expectativas. Por curiosidade, fizemos uma conta boba, e vimos que, se cada autor que nos enviou um texto tivesse comprado um livro da Bambolê teria garantido um orçamento para viabilizar a escolha do dobro de títulos. Então, deduzimos que é o próprio mercado que ajuda o mercado a não girar, a não andar. Somos nós, leitores, escritores, editores, livreiros, jornalistas, que valorizamos mais a literatura estrangeira, o livro traduzido, que compramos presentes caríssimos em vez de presentear encantamento por meio de livros, que não conhecemos o mercado, os autores pares, que não valorizamos, que não somos gratos...

 

Então, convoco todos os leitores da Bambolê a arregaçar as mangas e, de verdade, dar um primeiro passo para construirmos um país de leitores.

 

FELIZ 2017!

 

Ana Cristina Melo

Coordenadora Editorial da Editora Bambolê

 

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